terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Cativar

Algumas pessoas já me indagaram sobre a seguinte frase do escritor Antoine de Saint-Exupéry: “ Você se torna eternamente responsável por aquilo que cativa”. E agora encontrei um contra-argumento da escritora que eu muito admiro Martha Medeiros sobre esta mesma frase. Quem quiser ler clique no link> http://pensador.uol.com.br/frase/ODkwMTA3
Eu li, e com todo respeito discordo dela. Pois descontextualizou o sentido verdadeiro da frase. É necessário que as pessoas que adotaram seu contra-argumento, leiam o livro do Pequeno Príncipe primeiro.
Martha escreveu: “Bastava a pessoa simpatizar comigo e eu me sentia na obrigação de ser atenciosa a ponto de fazer coisas que não queria”.
Em 1º lugar, segundo o livro O Pequeno Príncipe do qual pertence a frase que estamos tratando, cativar significa Criar Laços. Não se cria laços através de uma leviana conversinha de instantes ou algo rápido do tipo como entende-se do escrito acima de Martha Medeiros. Uma pessoa ter simpatizado contigo não quer dizer que já te tornaste responsável por ela. De maneira alguma! Pois é preciso CRIAR LAÇOS. Criar. Laços. Não se cria laços em instantes de conversa, ou em meia dúzia de palavras trocadas, ou por um gesto de gentileza. Não é assim.
Quem leu e entendeu de verdade o livro, percebe que quando o Principezinho diz para a raposa que se sente responsável por ela, eles já haviam passado dias juntos. Conversaram, e brincaram. Mas 1º  se conheceram, assim cativando-se e após um bom tempo, criaram laços. Não foi por qualquer um que se simpatizou com o Principezinho que ele se sentiu na “obrigação de ser atencioso”, como colocado pela escritora. Ambas partes se cativaram por livre e espontânea vontade, razão pela qual no momento em que o príncipe tinha que ir embora, sentiu já uma saudade daquela que ele deixaria, a raposa. Isso é natural! Não há nada de peso ou punição em perceber que por termos cativado nos tornamos responsáveis por alguém. Pelo contrario! Quando estivermos com a pessoa cativada e cativante será ótimo o convívio, e quando estivermos longe também será ótimo, pois teremos diversas coisas a nossa volta que por razões especiais lembrarão a pessoa. Como ocorreu com a raposa ao dizer que o campo de trigo que ela via todos os dias, a partir daquele momento da partida do principezinho a lembraria dele, pois o trigo era dourado como os cabelos do príncipe. Concluímos que a amizade é um ganho de sentidos.
Leiamos direto da fonte esta parte da raposa e do Principezinho:
·        " Disse a raposa ao pequeno príncipe: Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos! E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim.
·        Não passo a teus olhos de uma simples e mortal raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro.
Serás para mim o único no mundo, e eu serei para ti a única no mundo.

Este parágrafo claramente desmente toda a interpretação errada e pesada que algumas pessoas atribuem a frase.
É importante tratarmos bem todas as pessoas, razão pela qual muitas simpatizam conosco, mas não são com todas que criamos laços, portanto não são todas que cativamos. Como no livro “Piloto de Guerra” do Saint-Exupéry ele diz: “Só estou ligado àqueles a quem eu me dou. Só compreendo aqueles a quem me uno.”  Nós não nos damos e nem nos unimos a qualquer um. Tenho certeza que com esta frase está bem claro a posição do Exupéry em relação ao sentimento citado pela escritora Medeiros de ter que “fazer coisas que não queremos por alguém que nem conhecemos”. Nós não nos damos a todos e nem cativamos todos, logo, a obrigação de ter de ser atencioso ou fazer coisas que não queremos por qualquer um, já está fora de cogitação. A frase do escritor não diz nada disso.
O livro O Pequeno Príncipe TAMBÉM aborda essa questão da amizade. Fala da importância de CONHECER as pessoas para criar laços, ou seja, não se cria laços com qualquer um. Como a raposa diz: “Só se conhece bem aquilo que cativou”. Talvez a amiga da Martha tenha usado equivocadamente a frase, e a Martha ficou com uma ideia errada do verdadeiro significado.
·        Eis a frase do livro: " As pessoas esqueceram essa verdade”, disse a raposa. “Mas você não deve esquecê-la: você se se torna eternamente responsável por aquilo que cativa”

Concordo com uma colocação da Martha Medeiros: “... a frase, quando usada como ameaça, cria um mal-estar entre cativantes e cativados”, certamente sim. Mas só tolos que não entenderam o livro a usam como ameaça. Não podemos tirar conclusões do mal uso que algumas pessoas fizeram da frase. É claro que não somos responsáveis por todas as pessoas, mas somos responsáveis somente por aquelas que verdadeiramente cativamos, ou seja, criamos laços. Esta famosa frase do Exupéry zela pelo cuidado que devemos ter para com esta arte de amar que é a amizade. Não há peso algum nesta frase para os que a entenderam. Ter um amigo é coisa séria e delicada, temos que cuidar. A responsabilidade não é um peso quando carregada com amor.

Finalizo com uma frase do Saint-Exupéry de outro livro seu chamado Cidadela: “O amigo, no ser humano, é aquela parte que é para você e que abre uma porta que talvez ele nunca abra para outra pessoa”.

Não acho saudável se valer da colocação e uso errado de uma colega de uns 14 anos sem conhecimento verdadeiro e contextualizado de uma baita frase dessas que vem acompanhada por uma grande e amorosa história, para contra-argumentar. Mas as pessoas parecem gostar de falar dos livros sem os lerem. Agora não me refiro a Martha Medeiros, mas a algumas das pessoas que não leram o livro e vieram me questionar sobre a frase apoiados na critica pessoal que leram de outras pessoas.

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